06/07/2013

SÍNDROME DE GABRIELA



SÍNDROME DE GABRIELA

Síndrome da Gabriela...
Se livre tu também dela ...

Posso até ter nascido assim, 
Posso ter vivido assim...
Posso até ter sido assim...
Mas não é o bastante pra mim...

Posso até ter crescido assim, 
Mas NÃO SEREI MAIS ASSIM !!! 
Pois que, para melhor viver, 
Tem que avançar, crescer...
Evoluir, a cabeça erguer...

Dizem que podemos não escolher
Aquilo que irá nos acontecer,
Mas que temos a responsabilidade 
De agir com singelidade...
De escolher o que fazer, 
Como fazer, 
E até mesmo escolher, 
Como haveremos de ser...

Meus queridos, minhas queridas,
O controle de mudar a letra da música da tua vida,
O poder de mudar a tua canção, 
Está só na tua, na tua mão...

É uma escolha, basta querer...
É isso?????????

Misael Malagoli

05/07/2013

Hino nacional foi causa de prisão de Graciliano Ramos


Diz cineasta



Toda conversa sobre Graciliano Ramos esbarra no cineasta Nelson Pereira dos Santos. E o inverso é mais do que verdadeiro. Tem sido assim desde 1963, quando Pereira, 84, levou ao cinema uma dos clássicos do autor, "Vidas Secas" (1938). Quebrou na ocasião uma lei tão antiga e universal quanto os dez mandamentos: a de que livro bom rende filme ruim.

Vinte anos depois, repetiu a façanha, novamente com Ramos, ao adaptar o livro"Memórias do Cárcere" (1953). São os dois filmes mais famosos de Pereira, e, tal qual os livros que lhes serviram de base, dois marcos da cultura brasileira no século 20.

Graciliano e Pereira estarão ligados novamente na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). O escritor alagoano (1892-1953) é o homenageado do evento, que acontece de 3 a 7 de julho. Veja abaixo entrevista com o cineasta:


http://youtu.be/Dzlrf0idZcE

04/07/2013

O gigolô das palavras


Quatro ou cinco grupos diferentes de alunos do Farroupilha estiveram lá em casa numa mesma missão, designada por seu professor de Português: saber se eu considerava o estudo da Gramática indispensável para aprender e usar a nossa ou qualquer outra língua. Cada grupo portava seu gravador cassete, certamente o instrumento vital da pedagogia moderna, e andava arrecadando opiniões. Suspeitei de saída que o tal professor lia esta coluna, se descabelava diariamente com suas afrontas às leis da língua, e aproveitava aquela oportunidade para me desmascarar. Já estava até preparando, às pressas, minha defesa ("Culpa da revisão! Culpa da revisão !"). Mas os alunos desfizeram o equívoco antes que ele se criasse. Eles mesmos tinham escolhido os nomes a serem entrevistados. Vocês têm certeza que não pegaram o Veríssimo errado? Não. Então vamos em frente.
Respondi que a linguagem, qualquer linguagem, é um meio de comunicação e que deve ser julgada exclusivamente como tal. Respeitadas algumas regras básicas da Gramática, para evitar os vexames mais gritantes, as outras são dispensáveis. A sintaxe é uma questão de uso, não de princípios. Escrever bem é escrever claro, não necessariamente certo. Por exemplo: dizer "escrever claro" não é certo mas é claro, certo? O importante é comunicar. (E quando possível surpreender, iluminar, divertir, mover... Mas aí entramos na área do talento, que também não tem nada a ver com Gramática.) A Gramática é o esqueleto da língua. Só predomina nas línguas mortas, e aí é de interesse restrito a necrólogos e professores de Latim, gente em geral pouco comunicativa. Aquela sombria gravidade que a gente nota nas fotografias em grupo dos membros da Academia Brasileira de Letras é de reprovação pelo Português ainda estar vivo. Eles só estão esperando, fardados, que o Português morra para poderem carregar o caixão e escrever sua autópsia definitiva. É o esqueleto que nos traz de pé, certo, mas ele não informa nada, como a Gramática é a estrutura da língua mas sozinha não diz nada, não tem futuro. As múmias conversam entre si em Gramática pura.
Claro que eu não disse isso tudo para meus entrevistadores. E adverti que minha implicância com a Gramática na certa se devia à minha pouca intimidade com ela. Sempre fui péssimo em Português. Mas - isso eu disse - vejam vocês, a intimidade com a Gramática é tão indispensável que eu ganho a vida escrevendo, apesar da minha total inocência na matéria. Sou um gigolô das palavras. Vivo às suas custas. E tenho com elas exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas. Só uso as que eu conheço, as desconhecidas são perigosas e potencialmente traiçoeiras. Exijo submissão. Não raro, peço delas flexões inomináveis para satisfazer um gosto passageiro. Maltrato-as, sem dúvida. E jamais me deixo dominar por elas. Não me meto na sua vida particular. Não me interessa seu passado, suas origens, sua família nem o que outros já fizeram com elas. Se bem que não tenho o mínimo escrúpulo em roubá-las de outro, quando acho que vou ganhar com isto. As palavras, afinal, vivem na boca do povo. São faladíssimas. Algumas são de baixíssimo calão. Não merecem o mínimo respeito.
Um escritor que passasse a respeitar a intimidade gramatical das suas palavras seria tão ineficiente quanto um gigolô que se apaixonasse pelo seu plantel. Acabaria tratando-as com a deferência de um namorado ou a tediosa formalidade de um marido. A palavra seria a sua patroa! Com que cuidados, com que temores e obséquios ele consentiria em sair com elas em público, alvo da impiedosa atenção dos lexicógrafos, etimologistas e colegas. Acabaria impotente, incapaz de uma conjunção. A Gramática precisa apanhar todos os dias pra saber quem é que manda.
Luís Fernando Veríssimo

O segundo verso da canção - Affonso Romano de Sant'Anna


Identidade cultural é unificação e confirmação de traços comuns existentes dentro de uma nação.

Passar cinquenta anos sem poder falar sua língua com alguém é um exílio agudo dentro do silêncio.
Pois há cinquenta anos, Jensen, um dinamarquês, vivia ali nos pampas argentinos. Ali chegara bem jovem, e desde então nunca mais teve com quem falar dinamarquês.
Claro que, no princípio, lhe mandavam revistas e jornais. Mas ninguém manda com assiduidade revistas e jornais para alguém durante cinquenta anos. Por causa disto, ali estava Jensen há inúmeros anos lendo e relendo o som silencioso e antigo de sua pátria. E como as folhas não falavam, punha-se a ler em voz alta, fingindo ouvir na própria voz a voz do outro, como se um bebê pudesse em solidão cantar para inventar a voz materna.
Cinquenta anos olhando as planuras dos pampas, acostumado já às carnes generosas dos churrascos conversados em espanhol, longe, muito longe dossmorgasboard natal.
Um dia, um viajante de carro parou naquele lugarejo. Seu carro precisava de outros reparos além da gasolina. Conversa-vai-conversa-vem, no posto ficam sabendo que seu nome também era Jensen. Não só Jensen, mas um dinamarquês. E alguém lhe diz: aqui também temos um dinamarquês que se chama Jensen e aquele é o seu filho. O filho se aproxima e logo se interessa para levar o novo Jensen dinamarquês ao velho Jensen dinamarquês - pois não é todos os dias que dois dinamarqueses chamados Jensen se encontram nos pampas argentinos.
No caminho, o filho ia indagando sobre a Dinamarca, que seu pai dizia ser a terra prometida, onde as vacas davam cem litros de leite por dia. Na casa, há cinquenta anos sem falar dinamarquês, estava o velho Jensen, ainda cercado de fotos, alguns objetos e uma abstrata lembrança de sua língua. Quando Jensen entrou na casa de Jensen e disse "bom dia" em dinamarquês, o rosto do outro Jensen saiu da neblina e ondulou alegrias. "É um compatriota!" E a uma palavra seguiram outras, todas em dinamarquês, e as frases corriam em dinamarquês, e o riso dinamarquês e a camaradagem dinamarquesa, tudo era um ritual desenterrando ao som da língua a sonoridade mítica da alma viking.
Jensen mandou preparar um jantar para Jensen. Vestiu-se da melhor roupa e assim os seus criados. Escolheu a melhor carne. E o jantar seguia em risos e alegrias iluminando cinquenta anos para trás. Jensen ouvia de Jensen sobre muitos conhecidos que morreram sem sua autorização, cidades que se modificaram sem seu consentimento, governos que vieram sem o seu beneplácito.   Em poucas horas, povoou sua mente de nomes de artistas, rostos de vizinhos, parques e canções. Tudo ia se descongelando no tempo ao som daquela língua familiar.
Mas havia um problema exatamente neste tópico das canções. Por isto, terminada a festa, depois dos vinhos e piadas, quando vem à alma a exilada vontade de cantar, Jensen chama Jensen num canto, como se fosse revelar algo grave e inadiável:
- Há cerca de cinquenta anos que estou tentando cantar uma canção e não consigo. Falta-me o segundo verso. Por favor (disse como se pedisse seu mais agudo socorro, como se implorasse: retira-me da borda do abismo), por favor, como era mesmo o segundo verso desta canção?
Sem o segundo verso nenhuma canção ou vida se completa. Sem o segundo verso a vida de um homem, dentro e fora dos pampas, é como uma escada onde falta um degrau, e o homem pára. É um piano onde falta uma tecla. É uma  boca de incompleta dentição.
Se falta o segundo verso, é como se na linha de montagem faltasse uma peça e não houvesse produção. De repente, é como se faltasse ao engenheiro a pedra fundamental e se inviabilizasse toda a construção. Isto sabe muito bem quem andou cinquenta anos na ausência desse verso para cantar a canção.
Jensen olhou Jensen e disse pausadamente o segundo verso faltante. E ao ouvi-lo, Jensen - o exilado - cantou de volta o poema inteiro preenchendo sonoramente cinquenta anos de solidão. Ao terminar, assentou-se num canto e batia os punhos sobre o joelho dizendo: "Que alegria! Que alegria!"
Era agora um homem inteiro. Tinha, enfim, nos lábios toda a canção.
(Sant'Anna, 1997)
Sobre o que trata o texto lido?
Há várias respostas para essa questão. Uma delas é que, apesar de falar sobre Jensen, o texto não está de fato comprometido em contar sua história. A história que esse texto nos conta está voltada para uma preocupação que deve fazer parte dos valores de cada cidadão: a questão da identidade cultural.
O que é isso? No texto, lemos que "passar cinquenta anos sem poder falar sua língua com alguém é um exílio agudo dentro do silêncio" e, ainda, que "por causa disto ali estava Jensen há inúmeros anos lendo e relendo o som silencioso e antigo de sua pátria."
O que buscava Jensen? Nada além de preservar sua identidade cultural, aquela que o assinala também como usuário de uma determinada língua que, por sua vez, possui seu patrimônio, seu acervo, sua herança - a língua escrita. E sua criatividade, espontaneidade, natureza mais livre e solta - a língua oral, preservada através da poesia, de canções provavelmente como esta, que Jensen não conseguia mais cantar...