05/10/2013

O amor acaba - Paulo Mendes Campos

 




O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irmã dentro de casa o amor pode acabar; na epifania da pretensão ridícula dos bigodes; nas ligas, nas cintas, nos brincos e nas silabadas femininas; quando a alma se habitua às províncias empoeiradas da Ásia, onde o amor pode ser outra coisa, o amor pode acabar; na compulsão da simplicidade simplesmente; no sábado, depois de três goles mornos de gim à beira da piscina; no filho tantas vezes semeado, às vezes vingado por alguns dias, mas que não floresceu, abrindo parágrafos de ódio inexplicável entre o pólen e o gineceu de duas flores; em apartamentos refrigerados, atapetados, aturdidos de delicadezas, onde há mais encanto que desejo; e o amor acaba na poeira que vertem os crepúsculos, caindo imperceptível no beijo de ir e vir; em salas esmaltadas com sangue, suor e desespero; nos roteiros do tédio para o tédio, na barca, no trem, no ônibus, ida e volta de nada para nada; em cavernas de sala e quarto conjugados o amor se eriça e acaba; no inferno o amor não começa; na usura o amor se dissolve; em Brasília o amor pode virar pó; no Rio, frivolidade; em Belo Horizonte, remorso; em São Paulo, dinheiro; uma carta que chegou depois, o amor acaba; uma carta que chegou antes, e o amor acaba; na descontrolada fantasia da libido; às vezes acaba na mesma música que começou, com o mesmo drinque, diante dos mesmos cisnes; e muitas vezes acaba em ouro e diamante, dispersado entre astros; e acaba nas encruzilhadas de Paris, Londres, Nova Iorque; no coração que se dilata e quebra, e o médico sentencia imprestável para o amor; e acaba no longo périplo, tocando em todos os portos, até se desfazer em mares gelados; e acaba depois que se viu a bruma que veste o mundo; na janela que se abre, na janela que se fecha; às vezes não acaba e é simplesmente esquecido como um espelho de bolsa, que continua reverberando sem razão até que alguém, humilde, o carregue consigo; às vezes o amor acaba como se fora melhor nunca ter existido; mas pode acabar com doçura e esperança; uma palavra, muda ou articulada, e acaba o amor; na verdade; o álcool; de manhã, de tarde, de noite; na floração excessiva da primavera; no abuso do verão; na dissonância do outono; no conforto do inverno; em todos os lugares o amor acaba; a qualquer hora o amor acaba; por qualquer motivo o amor acaba; para recomeçar em todos os lugares e a qualquer minuto o amor acaba.


Texto extraído do livro "O amor acaba", Editora Civilização Brasileira – Rio de Janeiro, 1999, pág. 21, organização e apresentação de Flávio Pinheiro.

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04/10/2013

MISSA DO GALO - Machado de Assis



Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria acordá-lo à meia-noite.
            A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-se bem, quando vim de Mangaratiba para o Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranquilo, naquela casa assobradada da Rua do Senado, com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia. Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a princípio, com a existência da comborça, mas, afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito direito.
            Boa Conceição! Chamavam-lhe “a santa”, e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido. Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal. Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.
            Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já devia estar em Mangaratiba, em férias; mas fiquei até o Natal para ver “a missa do galo na Corte”. A família recolheu-se à hora do costume; eu meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ninguém. Tinha três chaves na porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.
            - Mas, Sr. Nogueira, que fará você todo esse tempo? perguntou a mãe de Conceição.
            - Leio, D. Inácia.
            Tinha comigo um romance, os Três mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao cavalo magro de D’Artagnan e fui-me às aventuras. Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas. Os minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos no corredor que ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala o vulto de Conceição.
            - Ainda não foi? perguntou ela.
            - Não fui; parece que ainda não é meia-noite.
            - Que paciência!
            Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da alcova. Vestia um roupão branco, mal apanhado na cintura. Sendo magra, tinha um ar de visão romântica, não disparatada com o meu livro de aventuras. Fechei o livro; ela foi sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do canapé. Como eu lhe perguntasse se a havia acordado, sem querer, fazendo barulho, respondeu com presteza:
            - Não! qual! acordei por acordar.
            Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos não eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam não ter ainda pegado no sono. Essa observação, porém, que valeria alguma cousa em outro espírito, depressa a botei fora, sem advertir que talvez não dormisse justamente por minha causa, e mentisse para me não afligir ou aborrecer. Já disse que ela era boa, muito boa.
            - Mas a hora já há de estar próxima, disse eu.
            - Que paciência a sua de esperar acordado, enquanto o vizinho dorme! E esperar sozinho! Não tem medo de almas do outro mundo? Eu cuidei que se assustasse quando me viu.
            - Quando ouvi os passos estranhei; mas a senhora apareceu logo.
            - Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros.
            - Justamente: é muito bonito.
            - Gosta de romances?
            - Gosto.
            - Já leu A moreninha?
            - Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba.
            - Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que você tem lido?
            Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos por entre as pálpebras meio cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para umedecê-los. Quando acabei de falar, não me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar de mim os grandes olhos espertos.
            “Talvez esteja aborrecida” pensei eu.
            E logo alto:
            - D. Conceição, creio que vão sendo horas, e eu...
            - Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio; são onze e meia. Tem tempo. Você, perdendo a noite, é capaz de não dormir de dia?
            - Já tenho feito isso.
            - Eu, não; perdendo uma noite, no outro dia estou que não posso, e, meia hora que seja, hei de passar pelo sono. Mas também estou ficando velha.
            - Que velha o quê, D. Conceição?
            Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranquilas; agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impressão singular. Magra embora, tinha não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me pareceu tão distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina ou consertando a posição de algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. Estreito era o círculo das suas ideias; tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia, isto é, que nunca ouvira missa do galo na Corte, e não queria perdê-la.
            - É a mesma missa da roça; todas as missas se parecem.
            - Acredito; mas aqui há de haver mais luxo e mais gente também. Olhe, a semana santa na Corte é mais bonita que na roça. S. João não digo, nem Santo Antônio...
            Pouco a pouco, tinha-se inclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos espalmadas. Não estando abotoadas, as mangas, caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muito claros, e menos magros do que se poderiam supor. A vista não era nova para mim, posto também não fosse comum; naquele momento, porém, a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia contá-las do meu lugar. A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o que pensava das festas da roça e da cidade, e de outras cousas que me iam vindo à boca. Falava emendando os assuntos, sem saber por que, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela não eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:
            - Mais baixo! mamãe pode acordar.
            E não saía daquela posição, que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras. Realmente, não era preciso falar alto para ser ouvido; cochichávamos os dois, eu mais que ela, porque falava mais; ela, às vezes, ficava séria, muito séria, com a testa um pouco franzida. Afinal, cansou; trocou de atitude e de lugar. Deu volta à mesa e veio sentar-se do meu lado, no canapé. Voltei-me, e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só o tempo que ela gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas. Conceição disse baixinho:
            - Mamãe está longe, mas tem o sono muito leve; se acordasse agora, coitada, tão cedo não pegava no sono.
            - Eu também sou assim.
            - O quê? perguntou ela inclinando o corpo para ouvir melhor.
            Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canapé e repeti a palavra. Riu-se da coincidência; também ela tinha o sono leve; éramos três sonos leves.
            - Há ocasiões em que sou como mamãe: acordando, custa-me dormir outra vez, rolo na cama, à toa, levanto-me, acendo a vela, passeio, torno a deitar-me, e nada.
            - Foi o que lhe aconteceu hoje.
            - Não, não, atalhou ela.
            Não entendi a negativa; ela pode ser que também não a entendesse. Pegou das pontas do cinto e bateu com elas sobre os joelhos, isto é, o joelho direito, porque acabava de cruzar as pernas. Depois referiu uma história de sonhos, e afirmou-me que só tivera um pesadelo, em criança. Quis saber se eu os tinha. A conversa reatou-se assim lentamente, longamente, sem que eu desse pela hora nem pela missa. Quando eu acabava uma narrativa ou uma explicação, ela inventava outra pergunta ou outra matéria, e eu pegava novamente na palavra. De quando em quando, reprimia-me:
            - Mais baixo, mais baixo...
            Havia também umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver melhor. Uma dessas vezes creio eu que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou vagarosamente. Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me. Uma das que ainda tenho frescas é que, em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima. Estava de pé, os braços cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; não consentiu, pôs uma das mãos no meu ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma cousa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio, voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me achara lendo. Dali relanceou a vista pelo espelho, que ficava por cima do canapé, falou de duas gravuras que pendiam da parede.
            - Estes quadros estão ficando velhos. Já pedi a Chiquinho para comprar outros.
            Chiquinho era o marido. Os quadros falavam do principal negócio deste homem. Uma representava “Cleópatra”; não me recordo o assunto do outro, mas eram mulheres. Vulgares ambos; naquele tempo não me pareciam feios.
            - São bonitos, disse eu.
            - Bonitos são; mas estão manchados. E depois, francamente, eu preferia duas imagens, duas santas. Estas são mais próprias para sala de rapaz ou de barbeiro.
            - De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de barbeiro.
            - Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de moças e namoros, e naturalmente o dono da casa alegra a vista deles com figuras bonitas. Em casa de família é que não acho próprio. É o que eu penso; mas eu penso muita cousa assim esquisita. Seja o que for, não gosto dos quadros. Eu tenho uma Nossa Senhora da Conceição, minha madrinha, muito bonita; mas é de escultura, não se pode pôr na parede, nem eu quero. Está no meu oratório.
            A ideia de oratório trouxe-me a missa, lembrou-me que podia ser tarde e quis dizê-lo. Penso que cheguei a abrir a boca, mas logo a fechei para ouvir o que ela contava, com doçura, com graça, com tal moleza que trazia preguiça à minha alma e fazia esquecer a missa e a igreja. Falava das suas devoções de menina e moça. Em seguida referia umas anedotas de baile, uns casos de passeio, reminiscências de Paquetá, tudo de mistura, quase sem interrupção. Quando cansou do passado, falou do presente, dos negócios da casa, das canseiras de família, que lhe diziam ser muitas, antes de casar, mas não eram nada. Não me contou, mas eu sabia que casara aos vinte e sete anos.
            Já agora não trocava de lugar, como a princípio, e quase não saíra da mesma atitude. Não tinha os grandes olhos compridos, e entrou a olhar à toa para as paredes.
            - Precisamos mudar o papel da sala, disse daí a pouco, como se falasse comigo.
            Concordei, para dizer alguma cousa, para sair da espécie de sono magnético, ou o que quer que era me tolhia a língua e os sentidos. Queria e não queria acabar a conversação; fazia esforço para arredar os olhos dela, e arredava-os por um sentimento de respeito; mas a idéia de parecer que era aborrecimento, quando não era, levava-me os olhos outra vez para Conceição. A conversa ia morrendo. Na rua, o silêncio era completo.
            Chegamos a ficar por algum tempo, - não posso dizer quanto, - inteiramente calados. O rumor único e escasso, era um roer de camundongo no gabinete, que me acordou daquela espécie de sonolência; quis falar dele, mas não achei modo. Conceição parecia estar devaneando. Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz que bradava: “Missa do galo! missa do galo!”
            - Aí está o companheiro, disse ela levantando-se. Tem graça; você é que ficou de ir acordá-lo, ele é que vem acordar você. Vá, que hão de ser horas; adeus.
            - Já serão horas? perguntei.
            - Naturalmente.
            - Missa do galo! – repetiram de fora, batendo.
            - Vá, vá, não se faça esperar. A culpa foi minha. Adeus, até amanhã.
            E com o mesmo balanço do corpo, Conceição enfiou pelo corredor dentro, pisando mansinho. Saí à rua e achei o vizinho que esperava. Guiamos dali para a igreja. Durante a missa, a figura de Conceição interpôs-se mais de uma vez, entre mim e o padre; fiquei isto à conta dos meus dezessete anos. Na manhã seguinte, ao almoço, falei da missa do galo e da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de Conceição. Durante o dia, achei-a como sempre, natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversação da véspera. Pelo Ano-Bom fui para Mangaratiba. Quando tornei ao Rio de Janeiro, em março, o escrivão tinha morrido de apoplexia. Conceição morava no Engenho Novo, mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente juramentado do marido.


Assis, Machado. Contos. Série Bom Livro. 26ª ed. Editora Ática: 2002. p. 99-104.

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Nome:______________ _______________________________nº____ Série____
                                

Atividade de Literatura
Conto: Missa do galo – Machado de Assis


Responda:
1)    Quando ocorre a experiência vivida pelo Sr. Nogueira? Em que noite particularmente?

2)    Em que cidade e em que lugar ocorrem os fatos?


3)    Quanto tempo transcorre desde o momento em que Conceição entra na sala em que está Nogueira até o momento em que ele sai à rua para ir à missa?

4)    Pelas lembranças que são narradas, esse tempo parece ter demorado para passar ou parece ter passado rapidamente?


5)    Identifique no texto fatos que comprovem uma intimidade cada vez maior entre Conceição e Nogueira.

6)    Levante hipóteses: que razões poderiam levar Conceição a sentir vontade de viver uma aventura amorosa? E Nogueira?


7)    Que fato posterior, relatado no final da história, confirma que Conceição era uma mulher capaz de se interessar por outro homem, depois do marido?

8)    Quais dos seguintes fragmentos evidenciam a atração de Nogueira por Conceição:
a)    Que velha o quê, D. Conceição!
b)    Cochichávamos os dois, eu mais que ela, porque falava mais.
c)    Mais baixo! Mamãe pode acordar.
d)    A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro. Ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima.
9)    Quais dos fragmentos seguintes evidenciam haver pensamentos e sentimentos contraditórios em Conceição?
a)    Cuidei que ia dizer alguma coisa, mas estremeceu, como se tivesse um arrepio de frio, voltou as costas e foi sentar-se.
b)    Depois referiu uma história de sonhos, e afirmou-me que só tivera um pesadelo em criança.
c)    Mais baixo! Mamãe pode acordar. Ela, às vezes, ficava séria, muito séria, com a testa um pouco franzida.

10) A seguir, são relacionadas as características relativas ao amor e ao herói ou à heroína românticos. Elabore um quadro com as características realistas correspondentes encontradas em “Missa do galo”.
·        A mulher amada, para o herói romântico, é sinônimo de beleza e perfeição.
·        O casamento, no Romantismo, é resultado de um amor profundo e o fim de uma longa trajetória de obstáculos.
·        O amor está acima de todos os interesses; é a mola-mestra que impulsiona e purifica as ações humanas.
·        O herói romântico apresenta caráter forte e comportamento íntegro e linear, que raramente se altera ao longo da história.
·        O herói romântico é um ser especial, dotado de forças ou poderes incomuns.

11) Na sua opinião, ocorreu ou não algum envolvimento amoroso entre Conceição e Nogueira?





Os diferentes estilos - Paulo Mendes Campos




Parodiando Raymond Queneau, que toma um livro inteiro para descrever de todos os modos possíveis um episódio corriqueiro, acontecido em um ônibus de Paris, narra-se aqui, em diversas modalidades de estilo, um fato comum da vida carioca, a saber: o corpo de um homem de quarenta anos presumíveis é encontrado de madrugada pelo vigia de uma construção, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas, não existindo sinais de morte violenta.

Estilo interjetivo

Um cadáver! Encontrado em plena madrugada! Em pleno bairro de Ipanema! Um homem desconhecido! Coitado! Menos de quarenta anos! Um que morreu quando a cidade acordava! Que pena!

Estilo colorido

Na hora cor-de-rosa da aurora, à margem da cinzenta Lagoa Rodrigo de Freitas, um vigia de cor preta encontrou o cadáver de um homem branco, cabelos louros, olhos azuis, trajando calça amarela, casaco pardo, sapato marrom, gravata branca com bolinhas azuis. Para este o destino foi negro.


Estilo antimunicipalista (ou estilo Rigoniano)
Quando mais um dia de sofrimentos e desmandos nasceu para esta cidade tão mal governada, nas margens imundas, esburacadas e fétidas da Lagoa Rodrigo de Freitas, e em cujos arredores falta água há vários meses, sem falar nas freqüentes mortandades de peixes já famosas, o vigia de uma construção (já permitiram, por baixo do pano, a ignominosa elevação de gabarito em Ipanema) encontrou o cadáver de um desgraçado morador desta cidade sem policiamento. Como não podia deixar de ser, o corpo ficou ali entregue às moscas que pululam naquele foco de epidemias. Até quando?

Estilo reacionário (ou estilo Edsonlimesco)

Os moradores da Lagoa Rodrigo de Freitas tiveram nesta manhã de hoje o profundo desagrado de deparar com o cadáver de um vagabundo que foi logo escolher para morrer (de bêbado) um dos bairros mais elegantes desta cidade, como se já sabe não bastasse para enfeiar aquele local uma sórdida favela que nos envergonha aos olhos dos americanos que nos visitam ou que nos dão a honra de residir no Rio.

Estilo então

Então o vigia de uma construção em Ipanema, não tendo sono, saiu então para passeio de madrugada. Encontrou então o cadáver de um homem. Resolveu então procurar um guarda. Então o guarda veio e tomou então as providencias necessárias. Aí então eu resolvi te contar isso.

Estilo áulico
À sobremesa, alguém falou ao Presidente que na manhã de hoje o cadáver de um homem havia sido encontrado na Lagoa Rodrigo de Freitas. O Presidente exigiu imediatamente que um de seus auxiliares telegrafasse em seu nome à familia enlutada. Como lhe informassem que a vitima ainda não fora identificada, S. Ex., com o seu estimulante bom humor, alegrou os presentes com uma das suas apreciadas blagues.


Estilo schmidtiano
Coisa terrivel é o encontro com um cadáver desconhecido à margem de um lago triste à luz fria da aurora! Trajava-se com alguma humildade mas seus olhos eram azuis, olhos para a festa alegre colorida deste mundo. Era trágico vê-lo morto. Mas ele não estava ali, ingressara para sempre no reino inviolável e escuro da morte, este rio um pouco profundo caluniado de morte.




Estilo Complexo de Édipo
Onde estará a mãezinha do homem encontrado morto na Lagoa Rodrigo de Freitas? Ela que o amamentou, ela que o embalou em seus braços carinhosos?


Estilo preciosista
No crepúsculo matutino de hoje, quando fulgia solitária e longínqua da Estrela-d´Alva, o atalaia de uma construção civil, que perambulava insone pela orla sinuosa e murmurante de uma lagoa serena, deparou com a atra e lúrida visão de um ignoto e gélido ser humano, já eternamente sem o hausto que vivifica.


Estilo Nelson Rodrigues
Usava gravata cor de bolinhas azuis e morreu!

Estilo sem jeito
Eu queria ter o dom da palavra, o gênio de Rui e o estro de um Castro Alves, para descrever o que se passou na manhã de hoje. Mas não sei escrever, porque nem todas as pessoas que têm sentimentos são capazes de expressar esse sentimento. Mas eu gostaria de deixar, ainda que sem brilho literário, tudo aquilo que senti. Não sei se cabe aqui a palavra sensibilidade. Talvez não caiba. Talvez seja uma tragédia. Não sei escrever, mas o leitor poderá perfeitamente imaginar o que foi isso. Triste, muito triste. Ah, se eu soubesse escrever.


Estilo fofoca
Imagina você, Tutsi, que onte eu fui ao Sacha´s, legalíssimo, e dormi de tarde. Com o tony. Pois logo hoje, minha filha, que eu estava exausta e tinha hora marcada no cabeleireiro, e estava também querendo dar uma passada na costureira, acho mesmo que vou fazer aquele plissadinho, como a Teresa, o Roberto resolveu me telefonar quando eu estava no melhor do sono. Mas o que era mesmo que eu queria te contar? Ah, menina, quando eu olhei da janela, vi uma coisa horrível, um homem morto lá na beira da Lagoa. Estou tão nervosa! Logo eu que tenho horror a gente morta!


Estilo lúdico ou infantil
Na madrugada de hoje por cima, o corpo de um homem por baixo foi encontrado por cima pelo vigia de uma construção por baixo. A vitima por baixo nao trazia identificação por cima. Tinha aparentemente por cima a idade de quarenta anos por baixo.

Estilo concretista

Dead dead man man mexe mexe mexe Mensch Mensch MENSCHEIT

Estilo didático

Podemos encarar a morte do desconhecido encontrado morto à margem da Lagoa em três aspectos: a) policial; b) humano; c) teologico. Policial:o homem em sociedade; humano: o homem em si mesmo; teologico: o homem em Deus. Policia e homem: fenômeno; alma e Deus: epifenômeno. Muito simples, como os senhores vêem.

As formigas - Lygia Fagundes Telles



As formigas

Quando minha prima e eu descemos do táxi já era quase noite. Ficamos
imóveis diante do velho sobrado de janelas ovaladas, iguais a dois olhos tristes,
um deles vazado por uma pedrada. Descansei a mala no chão e apertei o braço
da prima.
- É sinistro.
Ela me impeliu na direção da porta. Tínhamos outra escolha? Nenhuma
pensão nas redondezas oferecia um preço melhor a duas pobres estudantes,
com liberdade de usar o fogareiro no quarto, a dona nos avisara por telefone
que podíamos fazer refeições ligeiras com a condição de não provocar incêndio.
Subimos a escada velhíssima, cheirando a creolina.
- Pelo menos não vi sinal de barata - disse minha prima.
A dona era uma velha balofa, de peruca mais negra do que a asa da
graúna. Vestia um desbotado pijama de seda japonesa e tinha as unhas aduncas
recobertas por uma crosta de esmalte vermelho-escuro descascado nas pontas
encardidas. Acendeu um charutinho.
- É você que estuda medicina? - perguntou soprando a fumaça na minha
direção.
- Estudo direito. Medicina é ela.
A mulher nos examinou com indiferença. Devia estar pensando em outra
coisa quando soltou uma baforada tão densa que precisei desviar a cara. A
saleta era escura, atulhada de móveis velhos, desparelhados. No sofá de
palhinha furada no assento, duas almofadas que pareciam ter sido feitas com os
restos de um antigo vestido, os bordados salpicados de vidrilho.
- Vou mostrar o quarto, fica no sótão - disse ela em meio a um acesso de
tosse. Fez um sinal para que a seguíssemos. - O inquilino antes de vocês
também estudava medicina, tinha um caixotinho de ossos que esqueceu aqui,
estava sempre mexendo neles.
Minha prima voltou-se: - Um caixote de ossos?
A mulher não respondeu, concentrada no esforço de subir a estreita
escada de caracol que ia dar no quarto. Acendeu a luz. O quarto não podia ser
menor, com o teto em declive tão acentuado que nesse trecho teríamos que
entrar de gatinhas. Duas camas, dois armários e uma cadeira de palhinha
pintada de dourado. No ângulo onde o teto quase se encontrava com o
assoa(ho, estava um caixotinho coberto com um pedaço de plástico. Minha
prima largou a mala e pondo-se de joelhos puxou o caixotinho pela alça de
corda. Levantou o plástico. Parecia fascinada.
- Mas que ossos tão miudinhos! São de criança? - Ele disse que eram de
adulto. De um anão.
- De um anão? É mesmo, a gente vê que já estão formados... Mas que
maravilha, é raro à beça esqueleto de anão. E tão limpo, olha aí admirou-se ela.
Trouxe na ponta dos dedos um pequeno crânio de uma brancura de cal. - Tão
perfeito, todos os dentinhos!
- Eu ia jogar tudo no lixo, mas se você se interessa pode ficar com ele. O
banheiro é aqui ao lado, só vocês é que vão usar, tenho o meu lá embaixo.
Banho quente, extra. Telefone, também. Café das sete às nove, deixo a mesa
posta na cozinha com a garrafa térmica, fechem bem a garrafa - recomendou
coçando a cabeça. A peruca se deslocou ligeiramente. Soltou uma baforada
final: - Não deixem a porta aberta senão meu gato foge.
Ficamos nos olhando e rindo enquanto ouvíamos o barulho dos seus
chinelos de salto na escada. E a tosse encatarrada. Esvaziei a mala, dependurei a
blusa amarrotada num cabide que enfiei num vão da veneziana. prendi na
parede, com durex, uma gravura de Grassmann e sentei meu urso de pelúcia
em cima do travesseiro. Fiquei vendo minha prima subir na cadeira,
desatarraxar a lâmpada fraquíssima que pendia de um fio solitário no meio do
teto e no lugar atarraxar uma lâmpada de duzentas velas que tirou da sacola. C
quarto ficou mais alegre. Em compensação, agora a gente podia ver que a roupa
de cama não era tão alva assim, alva era a pequena tíbia que ela tirou de dentro
do caixotinho. Examinou-a. Tirou uma vértebra e olhou pelo buraco tão
reduzido como o aro de um anel. Guardou-as com a delicadeza com que se
amontoam ovos numa caixa.
- Um anão. Raríssimo, entende? E acho que não falta nenhum ossinho, vou
trazer as ligaduras, quero ver se no fim da semana começo a montar ele.
Abrimos uma lata de sardinha que comemos com pão, minha prima tinha
sempre alguma lata escondida, costumava estudar até a madrugada e depois
fazia sua ceia. Quando acabou o pão, abriu um pacote de bolacha Maria.
- De onde vem esse cheiro? - perguntei farejando. Fui até o caixotinho,
voltei, cheirei o assoalho. - Você não está sentindo um cheiro meio ardido?
- É de bolor. A casa inteira cheira assim - ela disse. E puxou o caixotinho
para debaixo da cama.
No sonho, um anão louro de colete xadrez e cabelo repartido no meio
entrou no quarto fumando charuto. Sentou-se na cama da minha prima, cruzou
as perninhas e ali ficou muito sério, vendo-a dormir. Eu quis gritar, tem um
anão no quarto!, mas acordei antes. A luz estava acesa. Ajoelhada no chão,
ainda vestida, minha prima olhava fixamente algum ponto do assoalho.
- Que é que você está fazendo aí? - perguntei.
- Essas formigas. Apareceram de repente, já enturmadas. Tão decididas,
está vendo?
Levantei e dei com as formigas pequenas e ruivas que entravam em trilha
espessa pela fresta debaixo da porta, atravessavam o quarto, subiam pela
parede do caixotinho de ossos e desembocavam lá dentro, disciplinadas como
um exército em marcha exemplar.
- São milhares, nunca vi tanta formiga assim. E não tem trilha de volta, só
de ida - estranhei.
- Só de ida.
Contei-lhe meu pesadelo com o anão sentado em sua cama.
- Está debaixo dela - disse minha prima e puxou para fora o caixotinho.
Levantou o plástico. - Preto de formiga! Me dá o vidro de álcool.
- Deve ter sobrado alguma coisa aí nesses ossos e elas descobriram,
formiga descobre tudo. Se eu fosse você, levava isso lá pra fora.
- Mas os ossos estão completamente limpos, eu já disse. Não ficou nem um
fiapo de cartilagem, limpíssimos. Queria saber o que essas bandidas vêm fuçar
aqui.
Respingou fartamente o álcool em todo o caixote. Em seguida, calçou os
sapatos e, como uma equilibrista andando no fio de arame, foi pisando firme,
um pé diante do outro na trilha de formigas. Foi e voltou duas vezes. Apagou o
cigarro. Puxou a cadeira. E ficou olhando dentro do caixotinho.
- Esquisito. Muito esquisito. - O quê?
- Me lembro que botei o crânio em cima da pilha, me lembro que até calcei
ele com as omoplatas para não rolar. E agora ele está aí no chão do caixote, com
uma omoplata de cada lado. Por acaso você mexeu aqui?
- Deus me livre, tenho nojo de osso! Ainda mais de anão. Ela cobriu o
caixotinho com o plástico, empurrou-o com o pé e levou o fogareiro para a
mesa, era a hora do seu chá. No chão, a trilha de formigas mortas era agora uma
fita escura que encolheu. Uma formiguinha que escapou da matança passou
perto do meu pé, já ia esmagá-la quando vi que levava as mãos à cabeça, como
uma pessoa desesperada. Deixei-a sumir numa fresta do assoalho.
Voltei a sonhar aflitivamente, mas dessa vez foi o antigo pesadelo com os
exames, o professor fazendo uma pergunta atrás da outra e eu muda diante do
único ponto que não tinha, estudado. As seis horas o despertador disparou
veementemente. Travei a campanhia. Minha prima dormia com a cabeça
coberta. No banheiro, olhei com atenção para as paredes, para o chão de
cimento, à procura delas. Não vi nenhuma. Voltei pisando na ponta dos pés e
então entreabri as folhas da veneziana. O cheiro suspeito da noite tinha
desaparecido. Olhei para o chão: desaparecera também a trilha do exército
massacrado. Espiei debaixo da cama e não vi o menor movimento de formigas
no caixotinho coberto.
Quando cheguei por volta das sete da noite, minha prima já estava no
quarto. Achei-a tão abatida que carreguei no sal da omelete, tinha a pressão
baixa. Comemos num silêncio voraz. Então me lembrei.
- E as formigas?
- Até agora, nenhuma.
- Você varreu as mortas? Ela ficou me olhando.
- Não varri nada, estava exausta. Não foi você que varreu? - Eu?! Quando
acordei, não tinha nem sinal de formiga nesse chão, estava certa que antes de
deitar você juntou tudo... Mas, então, quem?!
Ela apertou os olhos estrábicos, ficava estrábica quando se preocupava.
- Muito esquisito mesmo. Esquisitíssimo.
Fui buscar o tablete de chocolate e perto da porta senti de novo o cheiro,
mas seria bolor? Não me parecia um cheiro assim inocente, quis chamar a
atenção da minha prima para esse aspecto, mas ela estava tão deprimida que
achei melhor ficar quieta. Espargi água-de-colônia Flor de Maçã por todo o
quarto (e se ele cheirasse como um pomar?) e fui deitar cedo. Tive o segundo
tipo de sonho, que competia nas repetições com o tal sonho da prova oral, nele
eu marcava encontro com dois namora dos ao mesmo tempo. E no mesmo
lugar. Chegava o primeiro e minha aflição era levá-lo embora dali antes que
chegasse o segundo. O segundo, desta vez, era o anão. Quando só restou o oco
de silêncio e sombra, a voz da minha prima me fisgou e me trouxe para a
superfície. Abri os olhos com esforço. Ela estava sentada na beira da minha
cama, de pijama e completamente estrábica.
- Elas voltaram.
- Quem?
- As formigas. Só atacam de noite, antes da madrugada. Estão todas aí de
novo.
A trilha da véspera, intensa, fechada, seguia o antigo percurso da porta até
o caixotinho de ossos por onde subia na mesma formação até desformigar lá
dentro. Sem caminho de volta.
- E os ossos?
Ela se enrolou no cobertor, estava tremendo.
- Aí é que está o mistério. Aconteceu uma coisa, não entendo mais nada!
Acordei pra fazer pipi, devia ser umas três horas. Na volta, senti que no quarto
tinha algo mais, está me entendendo? Olhei pro chão e vi a fila dura de
formigas, você se lembra? Não tinha nenhuma quando chegamos. Fui ver o
caixotinho, todas se trançando lá dentro, lógico, mas não foi isso o que quase
me fez cair pra trás, tem uma coisa mais grave: é que os ossos estão mesmo
mudando de posição, eu já desconfiava mas agora estou certa, pouco a pouco
eles estão... Estão se organizando.
- Como, se organizando?
Ela ficou pensativa. Comecei a tremer de frio, peguei uma ponta do seu
cobertor. Cobri meu urso com o lençol.
- Você lembra, o crânio entre as omoplatas, não deixei ele assim. Agora é a
coluna vertebral quejá está quase formada, uma vértebra atrás da outra, cada
ossinho tomando o seu lugar, alguém do ramo está montando o esqueleto, mais
um pouco e... Venha ver!
- Credo, não quero ver nada. Estão colando o anão, é isso?
Ficamos olhando a trilha rapidíssima, tão apertada que nela não caberia
sequer um grão de poeira. Pulei-a com o maior cuidado quando fui esquentar o
chá. Uma formiguinha desgarrada (a mesma daquela noite?) sacudia a cabeça
entre as mãos. Comecei a rir e tanto que se o chão não estivesse ocupado, rolaria
por ali de tanto rir. Dormimos juntas na minha cama. Ela dormia ainda quando
saí para a primeira aula. No chão, nem sombra de formiga, mortas e vivas
desapareciam com a luz do dia.
Voltei tarde essa noite, um colega tinha se casado e teve festa. Vim
animada, com vontade de cantar, passei da conta. Só na escada é que me
lembrei: o anão. Minha prima arrastara a mesa para a porta e estudava com o
bule fumegando no fogareiro.
- Hoje não vou dormir, quero ficar de vigia - ela avisou. O assoalho ainda
estava limpo. Me abracei ao urso.
- Estou com medo.
Ela foi buscar uma pílula para atenuar minha ressaca, me fez engolir a
pílula com um gole de chá e ajudou a me despir.
- Fico vigiando, pode dormir sossegada. Por enquanto não apareceu
nenhuma, não está na hora delas, é daqui a pouco que começa. Examinei com a
lupa debaixo da porta, sabe que não consigo descobrir de onde brotam?
Tombei na cama, acho que nem respondi. No topo da escada o anão me
agarrou pelos pulsos e rodopiou comigo até o quarto, Acorda, acorda! Demorei
para reconhecer minha prima que me segurava pelos cotovelos. Estava lívida. E
vesga.
- Voltaram - ela disse.
Apertei entre as mãos a cabeça dolorida. - Estão aí?
Ela falava num tom miúdo, como se uma formiguinha falasse com sua
voz.
- Acabei dormindo em cima da mesa, estava exausta. Quando acordei, a
trilha já estava em plena movimentação. Então fui ver o caixotinho, aconteceu o
que eu esperava...
- O que foi? Fala depressa, o que foi?
Ela firmou o olhar oblíquo no caixotinho debaixo da cama.
- Estão mesmo montando ele. E rapidamente, entende? O esqueleto já está
inteiro, só falta o fêmur. E os ossinhos da mão esquerda, fazem isso num
instante. Vamos embora daqui.
- Você está falando sério?
- Vamos embora, já arrumei as malas.
A mesa estava limpa e vazios os armários escancarados.
- Mas sair assim, de madrugada? Podemos sair assim?
- Imediatamente, melhor não esperar que a bruxa acorde. Vamos, levanta!
- E para onde a gente vai?
- Não interessa, depois a gente vê. Vamos, vista isto, temos que sair antes
que o anão fique pronto.
Olhei de longe a trilha: nunca elas me pareceram tão rápidas. Calcei os
sapatos, descolei a gravura da parede, enfiei o urso no bolso da japona e fomos
arrastando as malas pelas escadas, mais intenso o cheiro que vinha do quarto,
deixamos a porta aberta. Foi o gato que miou comprido ou foi um grito?
No céu, as últimas estrelas já empalideciam. Quando encarei a casa, só a
janela vazada nos via, o outro olho era penumbra.

In “Seminário dos Ratos”