04/07/2013

O segundo verso da canção - Affonso Romano de Sant'Anna


Identidade cultural é unificação e confirmação de traços comuns existentes dentro de uma nação.

Passar cinquenta anos sem poder falar sua língua com alguém é um exílio agudo dentro do silêncio.
Pois há cinquenta anos, Jensen, um dinamarquês, vivia ali nos pampas argentinos. Ali chegara bem jovem, e desde então nunca mais teve com quem falar dinamarquês.
Claro que, no princípio, lhe mandavam revistas e jornais. Mas ninguém manda com assiduidade revistas e jornais para alguém durante cinquenta anos. Por causa disto, ali estava Jensen há inúmeros anos lendo e relendo o som silencioso e antigo de sua pátria. E como as folhas não falavam, punha-se a ler em voz alta, fingindo ouvir na própria voz a voz do outro, como se um bebê pudesse em solidão cantar para inventar a voz materna.
Cinquenta anos olhando as planuras dos pampas, acostumado já às carnes generosas dos churrascos conversados em espanhol, longe, muito longe dossmorgasboard natal.
Um dia, um viajante de carro parou naquele lugarejo. Seu carro precisava de outros reparos além da gasolina. Conversa-vai-conversa-vem, no posto ficam sabendo que seu nome também era Jensen. Não só Jensen, mas um dinamarquês. E alguém lhe diz: aqui também temos um dinamarquês que se chama Jensen e aquele é o seu filho. O filho se aproxima e logo se interessa para levar o novo Jensen dinamarquês ao velho Jensen dinamarquês - pois não é todos os dias que dois dinamarqueses chamados Jensen se encontram nos pampas argentinos.
No caminho, o filho ia indagando sobre a Dinamarca, que seu pai dizia ser a terra prometida, onde as vacas davam cem litros de leite por dia. Na casa, há cinquenta anos sem falar dinamarquês, estava o velho Jensen, ainda cercado de fotos, alguns objetos e uma abstrata lembrança de sua língua. Quando Jensen entrou na casa de Jensen e disse "bom dia" em dinamarquês, o rosto do outro Jensen saiu da neblina e ondulou alegrias. "É um compatriota!" E a uma palavra seguiram outras, todas em dinamarquês, e as frases corriam em dinamarquês, e o riso dinamarquês e a camaradagem dinamarquesa, tudo era um ritual desenterrando ao som da língua a sonoridade mítica da alma viking.
Jensen mandou preparar um jantar para Jensen. Vestiu-se da melhor roupa e assim os seus criados. Escolheu a melhor carne. E o jantar seguia em risos e alegrias iluminando cinquenta anos para trás. Jensen ouvia de Jensen sobre muitos conhecidos que morreram sem sua autorização, cidades que se modificaram sem seu consentimento, governos que vieram sem o seu beneplácito.   Em poucas horas, povoou sua mente de nomes de artistas, rostos de vizinhos, parques e canções. Tudo ia se descongelando no tempo ao som daquela língua familiar.
Mas havia um problema exatamente neste tópico das canções. Por isto, terminada a festa, depois dos vinhos e piadas, quando vem à alma a exilada vontade de cantar, Jensen chama Jensen num canto, como se fosse revelar algo grave e inadiável:
- Há cerca de cinquenta anos que estou tentando cantar uma canção e não consigo. Falta-me o segundo verso. Por favor (disse como se pedisse seu mais agudo socorro, como se implorasse: retira-me da borda do abismo), por favor, como era mesmo o segundo verso desta canção?
Sem o segundo verso nenhuma canção ou vida se completa. Sem o segundo verso a vida de um homem, dentro e fora dos pampas, é como uma escada onde falta um degrau, e o homem pára. É um piano onde falta uma tecla. É uma  boca de incompleta dentição.
Se falta o segundo verso, é como se na linha de montagem faltasse uma peça e não houvesse produção. De repente, é como se faltasse ao engenheiro a pedra fundamental e se inviabilizasse toda a construção. Isto sabe muito bem quem andou cinquenta anos na ausência desse verso para cantar a canção.
Jensen olhou Jensen e disse pausadamente o segundo verso faltante. E ao ouvi-lo, Jensen - o exilado - cantou de volta o poema inteiro preenchendo sonoramente cinquenta anos de solidão. Ao terminar, assentou-se num canto e batia os punhos sobre o joelho dizendo: "Que alegria! Que alegria!"
Era agora um homem inteiro. Tinha, enfim, nos lábios toda a canção.
(Sant'Anna, 1997)
Sobre o que trata o texto lido?
Há várias respostas para essa questão. Uma delas é que, apesar de falar sobre Jensen, o texto não está de fato comprometido em contar sua história. A história que esse texto nos conta está voltada para uma preocupação que deve fazer parte dos valores de cada cidadão: a questão da identidade cultural.
O que é isso? No texto, lemos que "passar cinquenta anos sem poder falar sua língua com alguém é um exílio agudo dentro do silêncio" e, ainda, que "por causa disto ali estava Jensen há inúmeros anos lendo e relendo o som silencioso e antigo de sua pátria."
O que buscava Jensen? Nada além de preservar sua identidade cultural, aquela que o assinala também como usuário de uma determinada língua que, por sua vez, possui seu patrimônio, seu acervo, sua herança - a língua escrita. E sua criatividade, espontaneidade, natureza mais livre e solta - a língua oral, preservada através da poesia, de canções provavelmente como esta, que Jensen não conseguia mais cantar...

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