14/09/2013

SOZINHOS - Luís Fernando Veríssimo


Sozinhos
Luís Fernando Veríssimo
Esta ideia para um conto de terror é tão terrível que, logo depois de tê-la, me arrependi. Mas já estava tida, não adiantava mais. Você, leitor, no entanto, tem uma escolha. Pode parar aqui, e se poupar, ou ler até o fim e provavelmente nunca mais dormir. Vejo que decidiu continuar. Muito bem, vamos em frente. Talvez, posta no papel, a idéia perca um pouco do seu poder de susto. Mas não posso garantir nada. É assim:
Um casal de velhos mora sozinho numa casa. Já criaram os filhos, os netos já estão grandes, só lhes resta implicar um com o outro. Retomam com novo fervor uma discussão antiga. Ela diz que ele ronca quando dorme, ele diz que é mentira.
- Ronca.
- Não ronco.
- Ele diz que não ronca - comenta ela, impaciente, como se falasse com uma terceira pessoa.
Mas não existe outra pessoa na casa. Os filhos raramente visitam. Os netos, nunca. A empregada vem de manhã, faz o almoço, deixa o jantar e sai cedo.
Ficam os dois sozinhos.
- Eu devia gravar os seus roncos, pra você se convencer - diz ela. E em seguida tem a idéia infeliz. - É o que eu vou fazer! Esta noite, quando você dormir, vou ligar o gravador e gravar os seus roncos.
- Humrfm - diz o velho.
Você, leitor, já deve estar sentindo o que vai acontecer. Pare de ler, leitor. Eu não posso parar de escrever. Às idéias não podem ser desperdiçadas, mesmo que nos custem amigos, a vida ou o sono. Imagine se Shakespeare tivesse se horrorizado com suas próprias idéias e deixado de escrevê-las, por puro comedimento. Não que eu queira me comparar a Shakespeare. Shakespeare era bem mais magro. Tenho que exercer este ofício, esta danação. Você, no entanto, não é obrigado a me acompanhar, leitor. Vá passear, vá tomar um sol. Uma das maneiras de controlar a demência solta no mundo e deixar os escritores falando sozinhos, exercendo sozinhos a sua profissão malsã, o seu vício solitário. Você ainda está lendo. Você é pior do que eu, leitor. Você tinha escolha.
Sozinhos. Os velhos sozinhos na casa. Os dois vão para a cama. Quando o velho dorme, a velha liga o gravador. Mas em poucos minutos a velha também dorme. O gravador fica ligado, gravando. Pouco depois a fita acaba.
Na manhã seguinte, certa do seu triunfo, a velha roda a fita. Ouvem-se alguns minutos de silêncio. Depois, alguém roncando.
- Rarrá! - diz a velha, feliz.
Pouco depois ouve-se o ronco de outra pessoa, a velha também ronca!
- Rarrá! - diz o velho, vingativo.
E em seguida, por cima do contraponto de roncos, ouve-se um sussurro. Uma voz sussurrando, leitor. Uma voz indefinida. Pode ser de homem, de mulher ou de criança. A princípio - por causa dos roncos - não se distingue o que ela diz. Mas aos poucos as palavras vão ficando claras. São duas vozes.
É um diálogo sussurrado.
"Estão prontos?"
"Não, acho que ainda não..."
"Então vamos voltar amanhã..."



VOCABULÁRIO
1) ENCONTRE, NO TEXTO, PALAVRAS QUE SIGNIFIQUEM:
a) diferencia: ________________  f) moderação: _______________
b) loucura: __________________ g) confusão: ________________
c) firmar:________________          h) briga:__________________
d) agitado:________________      i) ardor: _________________
e) esbanjadas: _____________      j) sucesso: __________________
INTERPRETAÇÃO TEXTUAL
1) Segundo o narrador, uma das maneiras de controlar a demência solta no mundo é
a) deixar os escritores falando sozinhos.        d) não ler o que os escritores escrevem.
b) escrever histórias de terror.                          e) Ler o que os escritores escrevem.
c) escolher o que ler.          
2) De acordo com o texto "exercer este ofício, esta danação" refere-se:
a) se comparar a Shakespeare.          d) ligar o gravador.             
b) assustar os outros.        e) gravar o casal dormindo.
c) escrever histórias.
3) No final do texto o narrador destaca um diálogo que apareceu na gravação. Quem, supostamente estava conversando?

4) Qual era o motivo da discussão do casal de velhos?

ATIVIDADES GRAMATICAIS
1) No 1º parágrafo, existem duas orações subordinadas substantivas. Encontre-as e classifique-as:

2) Transforme os períodos simples abaixo em orações subordinadas substantivas e classifique-as:
a) "Estava certa do seu triunfo."
b) "É um diálogo sussurado."
c) "Você não tinha escolha."

3) Encontre, no texto, duas orações subordinadas substantivas objetivas diretas.

4) Classifique a oração subordinada substantiva abaixo:
"É necessário que gravemos os roncos."

5) Em relação à classificação do sujeito, assinale a alternativa incorreta.
a)      "Um casal de velhos mora sozinho numa casa." – Sujeito simples: um casal de velhos.
b)      "Ficam os dois sozinhos." – Sujeito simples: os dois.
c)       "Não ronco." – Sujeito indeterminado: Eu
d)      "Estão prontos?" – Sujeito indeterminado: Eles
e)      "Os filhos raramente visitam." – Sujeito simples: Os filhos.

6) Retire do texto duas frases nominais.

7)  Classifique os verbos e seus complementos.
a)      "Vou ligar o gravador."
b)      "Mas não existe outra pessoa na casa."
c)       Você convenceu-se de que ronca.
d)      Me surpreendi com a ideia que tive.
e)      "Como se falasse com uma terceira pessoa.

8) Quantas orações tem o 2º parágrafo do texto?

9)      O último parágrafo do texto é um período simples ou composto? Justifique:
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