21/09/2013

SOZINHOS - Luís Fernando Veríssimo

 


Esta ideia para um conto de terror é tão terrível que, logo depois de tê-la, me arrependi. Mas já estava tida, não adiantava mais. Você, leitor, no entanto, tem uma escolha. Pode parar aqui, e se poupar, ou ler até o fim e provavelmente nunca mais dormir. Vejo que decidiu continuar. Muito bem, vamos em frente. Talvez, posta no papel, a ideia perca um pouco do seu poder de susto. Mas não posso garantir nada. É assim:

Um casal de velhos mora sozinho numa casa. Já criaram os filhos, os netos já estão grandes, só lhes resta implicar um com o outro. Retomam com novo fervor uma discussão antiga. Ela diz que ele ronca quando dorme, ele diz que é mentira.

- Ronca.

- Não ronco.

- Ele diz que não ronca - comenta ela, impaciente, como se falasse com uma terceira pessoa.

Mas não existe outra pessoa na casa. Os filhos raramente visitam. Os netos, nunca. A empregada vem de manhã, faz o almoço, deixa o jantar e sai cedo.

Ficam os dois sozinhos.

- Eu devia gravar os seus roncos, pra você se convencer - diz ela. E em seguida tem a idéia infeliz. - É o que eu vou fazer! Esta noite, quando você dormir, vou ligar o gravador e gravar os seus roncos.

- Humrfm - diz o velho.

Você, leitor, já deve estar sentindo o que vai acontecer. Pare de ler, leitor. Eu não posso parar de escrever. Às ideias não podem ser desperdiçadas, mesmo que nos custem amigos, a vida ou o sono. Imagine se Shakespeare tivesse se horrorizado com suas próprias idéias e deixado de escrevê-las, por puro comedimento. Não que eu queira me comparar a Shakespeare. Shakespeare era bem mais magro. Tenho que exercer este ofício, esta danação. Você, no entanto, não é obrigado a me acompanhar, leitor. Vá passear, vá tomar um sol. Uma das maneiras de controlar a demência solta no mundo e deixar os escritores falando sozinhos, exercendo sozinhos a sua profissão malsã, o seu vício solitário. Você ainda está lendo. Você é pior do que eu, leitor. Você tinha escolha.

Sozinhos. Os velhos sozinhos na casa. Os dois vão para a cama. Quando o velho dorme, a velha liga o gravador. Mas em poucos minutos a velha também dorme. O gravador fica ligado, gravando. Pouco depois a fita acaba.

Na manhã seguinte, certa do seu triunfo, a velha roda a fita. Ouvem-se alguns minutos de silêncio. Depois, alguém roncando.

- Rarrá! - diz a velha, feliz.

Pouco depois ouve-se o ronco de outra pessoa, a velha também ronca!

- Rarrá! - diz o velho, vingativo.

E em seguida, por cima do contraponto de roncos, ouve-se um sussurro. Uma voz sussurrando, leitor. Uma voz indefinida. Pode ser de homem, de mulher ou de criança. A princípio - por causa dos roncos - não se distingue o que ela diz. Mas aos poucos as palavras vão ficando claras. São duas vozes.

É um diálogo sussurrado.

"Estão prontos?"

"Não, acho que ainda não..."

"Então vamos voltar amanhã..."


 

 

VOCABULÁRIO

1) ENCONTRE, NO TEXTO, PALAVRAS QUE SIGNIFIQUEM:

a) diferencia: ________________              f) moderação: _______________

b) loucura: __________________              g) confusão: ________________

c) firmar:________________                      h) briga:__________________

d) agitado:________________                   i) ardor: _________________

e) esbanjadas: _____________                 j) sucesso: __________________

 

INTERPRETAÇÃO TEXTUAL

 

1) Segundo o narrador, uma das maneiras de controlar a demência solta no mundo é

a) deixar os escritores falando sozinhos.        d) não ler o que os escritores escrevem.

b) escrever histórias de terror.                          e) Ler o que os escritores escrevem.

c) escolher o que ler.          

 

2) De acordo com o texto "exercer este ofício, esta danação" refere-se:

a) se comparar a Shakespeare.          d) ligar o gravador.             

b) assustar os outros.        e) gravar o casal dormindo.

c) escrever histórias.

 

3) No final do texto o narrador destaca um diálogo que apareceu na gravação. Quem, supostamente estava conversando?

 

4) Qual era o motivo da discussão do casal de velhos?

 

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